domingo, 10 de janeiro de 2010

Belly Tank


Antes de começar a ler essa matéria, você precisa saber que 1mph equivale a 1,609 Kmh e que na década de 40 e 50, coisas como telemetria,injeção eletrônica,fibra de carbono não existiam!
Toda essa história dos hotrods, rodders, salt flats, fords depenados ,tetos rebaixados e corridas , se consolidou no pós-guerra americano. Meia dúzia de gatos pingados, loucos por adrenalina e velocidade, reuniam-se simplesmente para ver qual o carro mais rápido. Os recursos financeiros dessa galera estavam longe de serem razoáveis. Como um carro era sempre mais rápido que outro, a busca por desempenho e melhorias era constante. O legal é que quem tá na merda se obriga a ser mais criativo que os outros, daí saíram idéias e teorias geniais. Muitas usadas até hoje!
Na década de 40 Bill Burke corria com Ford 32 pelos lagos secos da Califórnia quando foi chamado pelo exército americano para fazer parte da tripulação de um navio. Um dia, tomando uma Bud bem gelada (essa parte da Bud eu inventei hehe) observava um cargueiro que descarregava os tanques de combustíveis dos aviões de combate P51, os lendários Mustangs.

Bill tinha segundas intenções para os tanques dos P51. Ele se impressionou tanto com a aerodinâmica deles que deu um jeito de pegar as medidas. Comparando com as dimensões de um Ford, Bill viu que era plenamente viável construir alguma coisa parecida com um tanque de P51 para correr. Para sua surpresa, quando retornou da guerra e começou a correr novamente, percebeu que nos ferros velhos tinham tanques de combustível dos Mustang aos montes e vendiam a preço de banana, $35! Quem compraria um tanque de avião? E se comprasse, o que faria com ele? Para os ferros velhos 35 dolares estava mais do que bom, afinal de contas, a força aérea americana depois da guerra não tinha o que fazer com as aeronaves e as vendiam por aproximadamente $300. Daí a explicação porque muitos rodders usavam peças de avião em seus carros. Grande parte deles eram ex- combatentes e conheciam bem as peças.
Por 35 dolares Bill Burke nem se cansou em projetar e construir um belly tank. O governo americano já tinha gasto muito tempo e dinheiro na engenharia desses tanques para serem leves e aerodinâmicos em altas velocidades. Dizem que essa foi a maior contribuição do Tio Sam para os rodders.
O primeiro belly tank construído por Bill era de um P51 com 165 galões, o único que ele tinha visto na guerra. Muitas modificações foram necessárias e devido a falta de espaço, a aerodinâmica não ficou ideal. Ele correu em 1946 com motor v8 Mercury atingindo 131.96mph.

No ano seguinte Burke fez um carro usando o tanque de um avião P38.

Com 315 galões o tanque do P38 era muito maior que o P51. A diferença foi que nesse carro o motor passou pra atrás, o piloto pra frente e tirando as rodas, tudo coube dentro do tanque. Não se tem dados da velocidade alcançada por esse carro, mas certamente deve ter superado o primeiro belly tank construído por Bill.

Alex Xydias, proprietário da loja So-cal, também foi um famoso “racer tank”. Seu carro era parecido com o do precursor Bill Burke salvo uma bolha que cobria o piloto e melhorava ainda mais a aerodinâmica.

Em 1951, em Bonenneville, usando um motor flathead de 156 polegadas, a equipe So-cal atingiu o recorde de velocidade da categoria com 145.395mph. Nessa época, no deserto, já eram preparados os trilhos onde os carros corriam, um “trabalhinho” básico de terraplanagem pra ajudar no desempenho.
Ainda não satisfeitos a equipe So-cal, pegou esse mesmo belly tank e colocou um motor Flathead Mecury de 259 polegadas. Colocaram o carro no deserto e atingiram a marca 181.085mph.

Quem curte esse lance de carros e corridas sabe que um resultado sempre “podia ter sido melhor”, por melhor que ele seja. Alex Xydias e sua equipe da So-cal não pensavam diferente. Pegaram o tanque mais uma vez, levaram pra oficina e colocaram outro Flathead Mercury. Esse tinha 296 polegadas e fez com que Alex Xydias alcançasse a incrível velocidade de 198.340mph. Até hoje essa é a maior velocidade que um Flathead non-blown (sem blower ) alcançou em sentido único.

Vale lembrar que esses fatos aconteceram no fim da década de 40 início de 50 e que em 1952 Troy Ruttman ganhou as 500 Milhas de Indianápolis com vários patrocinadores fazendo velocidade média de 128.922mph. Enquanto isso, Alex Xydias era mais rápido dentro de um velho tanque de gasolina da segunda guerra comprado por $35 dolares em um ferro velho.

6 comentários:

- raFASTra - disse...

Muito bom isso aí meu! Show de bola essa história. É sempre bom saber que nem sempre a grana faz tudo acontecer. As idéias, assim como a força de vontade, se não estiverem alinhadas com alguma grana, não deixam o sucesso chegar.

E é assim que no pós-guerra as coisas aconteciam. Acho que estamos precisando de mais uns loucos que nem aqueles!

Abração!

Shovelhead disse...

valeu rafa!!!
só a grana não adianta mesmo, o cara tem que ter a "catinga no corpo" hehehe

Marco Queiroz disse...

Ter visão e coragem para fazer. E alguma grana é certo que ajuda.

Custódio Cesar Castro de Almeida – CCCA disse...

Ótimo texto. Cativante até o final.

Diferentemente dos precursores do automobilismo, hoje em dia falta criatividade. Ou coragem mesmo...

Li uma frase que representa bem isso: "O impossível, em geral, é o que não se tentou." (Jim Goodwin)

Por isso que nos chamam de loucos. heheheh

Alexandre Machado disse...

Muito legal a reportagem!!!

Carros Antigos disse...

Bicho, teu blog é bom para cacete! Parabéns.
Abraço, Nik.

http://carrosantigos.wordpress.com/
http://shoeboxford.wordpress.com/